quinta-feira, 9 de julho de 2020

Remoção de páginas no Facebook pode ser golpe fatal na rede bolsonarista

Foto: Rafael Henrique.

Matheus Pichonelli - Yahoo Notícias -  Um velho clichê da linguagem esportiva diz que o mais difícil não é chegar ao topo. É manter-se lá.
Ao que tudo indica, o estafe de Jair Bolsonaro decidiu levar a sério essa máxima quando o então deputado deixou um gabinete desprestigiado no corredor da Câmara dos Deputados para mudar de mala e cuia para o Palácio do Planalto.
A História ainda vai contar qual a real influência da compra de pacote de disparos em massa de contra adversários no WhatsApp e a produção em escala industrial de memes em torno do mito nas redes sociais. O impulso pode não ter sido determinante para o resultado eleitoral, mas produziu efeito.
Tanto produziu que, ao que tudo indica, subiu a rampa com o candidato vitorioso.
É o que apontam as ainda iminentes pistas das investigações sobre o funcionamento do chamado “gabinete do ódio” de Bolsonaro. O fio tem sido puxado em uma CPMI no Congresso, um inquérito no Supremo Tribunal Federal e, agora, pelas próprias plataformas onde as possíveis irregularidades foram produzidas e alimentadas.
Desde a eleição do capitão, todo mundo já recebeu ao menos uma mensagem de linguagem tosca e gosto duvidoso nos grupos ou linhas do tempo de amigos e familiares relacionados a algum tema espinhoso torcido e distorcido até caber na mensagem em forma de meme.
Tem lá a foto do presidente batendo continência num cenário chuvoso com uma frase de autoria dividida com Rui Barbosa (sic)): “Uma nação que confia em seus direitos (STF), em vez de confiar em seus soldados. Engana-se a si mesma e prepara a sua própria queda”.
Tem também a montagem do rosto do capitão com uniforme verde e oliva incendiado e alvejado pelas facas da Globo, do Intercept e do STF para proteger o sono de Sergio Moro. O ex-ministro na montagem agradece a proteção com uma facada nas costas.
Tem também o rosto dos ministros do STF que serão substituídos um a um por nomes decentes caso Bolsonaro seja eleito em 2022.
Quem produz tudo isso e com tanta rapidez?
A pergunta, perto de ser respondida, leva a outra: isso não configura campanha antecipada?
Não seria se fosse obra de algum fã desocupado que decidiu transformar suas redes sociais numa trincheira.
Tudo se complica quando se descobre que as páginas são alimentadas por funcionários públicos pagos com o seu (sim, o seu) dinheiro.
Na ação que removeu 73 páginas ligadas a integrantes dos gabinetes de Jair Bolsonaro, seus filhos e aliados, o Facebook informou que elas atuaram para manipular o uso da plataforma antes e durante o mandato do presidente. Para isso usavam contas falsas ou duplicadas e personagens fictícios que se passavam por repórteres para simular veículos de mídia.
Ao menos cinco funcionários e ex-funcionários de gabinetes bolsonaristas estavam por trás das postagens, segundo a investigação. Algumas eram publicadas durante o horário em que eles deveriam estar em serviço. Os autores promoviam ataques a adversários, moldavam narrativas e disseminavam desinformação a respeito de temas delicados, como o coronavírus.
O Facebook, no entanto, reiterou que as contas foram barradas por conta do comportamento dos gerenciadores, e não do conteúdo que eles produziam.
Um dos alvos é Tércio Arnaud Tomaz, que administrava uma dessas páginas de exaltação a Bolsonaro de aparência amadora e que se tornou assessor especial da Presidência. Ele é suspeito de integrar o “gabinete do ódio”.
Outro suspeito é um assessor do deputado Eduardo Bolsonaro conhecido como Paulo Chuchu, que administrava uma página responsável por promover a Aliança pelo Brasil, futuro partido da família.
A ação acontece no momento em que o Facebook assiste ao desembarque de diversas empresas anunciantes por discordarem das ações da plataforma para conter fake news e discurso do ódio.
A investigação que embasou as remoções fere de morte um dos pilares do bolsonarismo: a lenda de que o presidente chegou aonde chegou de forma orgânica, contando apenas com a coragem e a mobilização popular. Essa mobilização teve um custo. E ela tem saído caro, como mostram as pressões de grupos econômicos preocupados com as ações do governo no combate à pandemia e ao desmatamento.

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