quarta-feira, 29 de abril de 2020

Famílias abrem caixões lacrados à beira das covas coletivas para ter certeza de que estão enterrando seus parentes em Manaus



Yan Boechat - Yahoo Notícias - O cheiro acre dos corpos entrando em decomposição chegou devagar. Primeiro, um leve desconforto. Logo toda a tenda erguida às margens da vala comum no cemitério do Tarumã para proteger vivos e mortos do sol amazônico foi tomada pelo odor forte e nauseante de seres humanos apodrecendo.
O cheiro vinha dos sete caixões enfileirados lado a lado aguardando a vez de irem para a vala comum aberta poucas horas antes. Ganhava mais intensidade quando um parente decidia por conta própria abrir as urnas funerárias para checar se o corpo que estava prestes a sepultar era mesmo do seu familiar.
“Depois do que aconteceu o pessoal quer ter certeza de que está enterrando a pessoa certa”, conta um dos funcionários do cemitério que tentam organizar os enterros coletivos. “Não é o certo, mas do jeito que está a coisa, estamos deixando para evitar problema”, contava ele enquanto urubus sobrevoavam a área destinada aos enterros em vala comum.
Sobrecarregado com um aumento de 300% nas mortes nessas últimas semanas por conta da crise do novo coronavírus, o sistema funerário de Manaus está à beira do colapso. Com sepultamentos se aproximando da casa de 150 a cada dia, os corpos tem sido armazenados em câmaras frigoríficas nos hospitais, unidades de saúde e até no próprio cemitério.

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