terça-feira, 3 de março de 2020

UFPB vai comercializar remédios a partir da milona - Parcerias com a indústria farmacêutica produzirão medicamentos em larga escala


Pesquisadores garantem que planta combate sintomas de doenças respiratórias como asma e rinite. Crédito: Divulgação

O Programa de Pós-Graduação em Produtos Naturais e Sintéticos (PgPNSB) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) celebra 41 anos com nível de excelência. 
A Cissampelos sympodialis Eichl, conhecida popularmente como milona. Considerada uma “planta milagrosa” por combater males que comprometem as vias aéreas, tais como asma, rinite, bronquite e gripe, a milona já rendeu conquistas importantes para a UFPB, como o Prêmio José Pedro de Araújo, um dos principais da área, e duas patentes registradas no Instituto Nacional de Patentes Industriais (INPI), ajudando a UFPB a se tornar líder de depósito de patentes no país.
Na entrevista abaixo, a pesquisadora Márcia Regina Piuvezam, professora do Departamento de Fisiologia e Patologia da UFPB, conta como o PgPNSB se consolidou e detalha parcerias com empresas nacionais e internacionais que podem fazer a UFPB avançar ainda mais no desenvolvimento de produtos a partir da milona.

Ascom/UFPB: Durante este tempo houve muita dedicação ao estudo da milona, a partir da qual já se produziram 56 artigos científicos e 45 teses. Por que essa planta ganhou tal importância?
Márcia Regina: A milona (Cissampelos sympodialis Eichl,) chegou ao programa para ser estudada pelos seus grupos de pesquisa pelas mãos da professora Margareth Diniz, hoje reitora da UFPB, que a trouxe dos arredores da cidade de Sousa, no interior da Paraíba (PB). Na época, a relatou como sendo uma “planta milagrosa” para o alívio dos sintomas dos males das vias aéreas, tais como asma, rinite, bronquite e gripe.
O grupo de pesquisa pelo qual sou responsável trabalha basicamente com modelos experimentais que mimetizam tais doenças e, como integrante do corpo docente, fui introduzida a essa planta em meados dos anos 1996 e, desde então, venho trabalhando juntamente com meus alunos e colaboradores nacionais e internacionais no sentido de desvendar as propriedades imunofarmacológicas da milona e seus compostos isolados.
Esses 23 anos de estudos nos proporcionou resultados que nos levaram a produzir mais de 50 trabalhos científicos, entre artigos, revisões, Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), dissertações e teses e uma patente que respaldam cientificamente as propriedades imunofarmacológicas e seus benefícios nas doenças do trato respiratório, tornando a planta e seus compostos candidatos a se tornarem fitoterápicos e/ou fitofármacos.
Mas nós também dedicamos tempo e energia para estudar outras plantas, a exemplo da Chondodendrum platyphyllun (abutua), Musa paradisíaca (banana), nesse caso extrato da inflorescência (coração da banana), e Amburana cearensis (umburana de cheiro).

Ascom/UFPB: Quais os estudos pioneiros sobre a milona e como eles contribuíram para esse status que a planta alcançou?

Márcia Regina: Um dos trabalhos com a milona e seus compostos que impulsionou os estudos no programa veio de uma dissertação da Steyner de Franca Cortes sobre a ação espasmolítica de warifteina, um alcaloide bisbenzilisoquinolinico isolado de Cissampelos sympodialis Eichl, em 1992, pelo mestrado em Produtos Naturais e Sintéticos Bioativos da UFPB, orientada por José Maria Barbosa Filho e George Thomas, que demonstrou a ação espasmolítica do composto majoritário da milona, o alcaloide warifteina.
Considerando que as doenças que acometem o trato respiratório, muitas vezes, apresentam à contração da musculatura pulmonar com bronco constrição e dificuldade em respirar, esse trabalho demonstrou que a planta apresenta propriedades farmacológicas que podem aliviar esse sintoma especificamente. Portanto, como nossos estudos visam desvendar as propriedades anti-inflamatória e imunomoduladora de moléculas e extratos das plantas medicinais, demos início aos estudos nesse sentido.

Ascom/UFPB: Além do uso medicinal para o tratamento de doenças respiratórias, existe alguma outra utilização da planta milona?

Márcia Regina A milona é utilizada na medicina tradicional basicamente para o tratamento dos sintomas das doenças relacionadas ao trato respiratório. Entretanto, como nosso grupo de pesquisa demonstrou cientificamente que tanto o extrato quanto seus compostos isolados (warifteina) apresentam propriedades anti-inflamatória e imunomoduladora, outros grupos de pesquisa do programa que estudam modelos experimentais onde as doenças apresentam fundo inflamatório também vêm estudando a planta e seus derivados.
Os modelos experimentais os quais citamos acima estão relacionados com o trato gastrointestinal, o gênito-urinário, o sistema nervoso central e o sistema circulatório.

Ascom/UFPB: A milona já foi testada em humanos? Existe alguma novidade nesse sentido?

Márcia Regina: Sim, nosso grupo de pesquisa ganhou, em 2007, o concorrido prêmio Nacional da Fundação José Pedro de Araújo, com o trabalho Uso potencial dos extratos das folhas de Cissampelos sympodialis Eichl (menispermaceae) e do alcaloide warifteina no tratamento de asma, o que deu grande visibilidade aos nossos estudos e à planta e seus efeitos imunofarmacológicos.
Em 2015, a discente Liane Franco Barros Mangueira defendeu sua tese com o trabalho intitulado Ensaio clínico com o infuso das folhas de Cissampelos sympodialis Eichl. (Menispermaceae), orientada pela professora Margareth Diniz. Até o presente, nós, enquanto entidade federal de ensino e pesquisa, não firmamos acordos com a indústria farmacêutica no sentido de produzir um fármaco ou fitofármaco.

Ascom/UFPB: A UFPB já tem dois registros de patente com invenções em torno da milona. O que falta para estas invenções chegarem como produto comercial para a sociedade?

Márcia Regina: A UFPB, enquanto instituição pública federal, frente aos resultados obtidos pelos grupos de estudos, deverá realizar acordos entre instituições pública ou privada (por exemplo, indústria farmacêutica) que tenham interesse em produzir o medicamento.

Ascom/UFPB: Uma pesquisa básica na internet indica a existência de vários chás produzidos a partir da milona. A UFPB tem alguma contribuição para estes produtos que estão sendo comercializados? Eles têm registro e são seguros?

Márcia Regina: Quanto a esses chás, a partir das folhas da milona que estão sendo comercializados, não vêm de nossa Instituição (UFPB). Portanto, não sabemos a procedência, se têm registros na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ou se são seguros.

Ascom/UFPB: Por fim, qual o futuro da milona enquanto objeto de estudo científico?

Márcia Regina: Cientificamente falando, a milona é realmente uma “planta milagrosa” no sentido de que tem propriedades imunofarmacológicas, tais como anti-inflamatória e imunomoduladora comprovadas, e que consequentemente aliviam os sintomas das doenças inflamatórias agudas e crônicas tais como rinite, asma, bronquite e afins. Portanto, acreditamos que, com a quantidade de compostos isolados da planta (em torno de dez), temos no mínimo mais uns dez anos de estudos.

Marcus Alves | Ascom/UFPB

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Arquivo do blog