quarta-feira, 2 de outubro de 2019

‘Muito fogo e gritaria. Era a visão do inferno’: Carandiru, 27 anos depois


Alma Preta - Yahoo Notícias - Detentos no Carandiru, onde 111 presos morreram durante ação policial, dizem aos jornalistas que o incidente foi um "massacre" e fazem apelo para que grupos de direitos humanos investiguem as condições do centro de detenção. Naquela época, o maior do Brasil. (Foto: Jamil Ismail MA/ REUTERS)

Texto / Lucas Veloso | Edição / Vinicius Martins - “O tumulto durou cerca de meia hora e quando a gente viu, a polícia já estava invadindo”. Com essas palavras, Antonio da Silva, um dos sobreviventes do Carandiru, lembra do massacre no presídio, há 27 anos atrás.
A tragédia aconteceu no complexo penitenciário localizado na região norte da cidade de São Paulo. Segundo depoimentos, as ações começaram depois que uma briga entre “Coelho” e “Barba”, dois presos, saiu do controle. A Polícia Militar entrou com a suposta missão de apaziguar a situação. Após pouco mais de uma 1h dentro do presídio, a rebelião foi controlada e 111 pessoas foram assassinadas.

Em entrevista exclusiva ao Alma Preta, Alcides*, tenente da Polícia Militar de São Paulo e integrante da operação, conta que estava na sua viatura quando ficou sabendo da rebelião e logo foi para o local.

O militar, um dos primeiros a chegar, disse que lá viu “um fogo muito alto, uma gritaria e eles jogando caco, privada pela janela. Estava a visão do inferno”, resume.

A Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA) foi o primeiro batalhão a entrar e fazer o confronto, após ordens da alta cúpula da polícia e do Coronel da PM, Ubiratan Guimarães.

Antônio diz que, quando a polícia chegou, começou a ouvir uma série de rajadas de metralhadoras. Decidiu então correr para dentro da sua cela e logo ouviu o grito dos policiais: “a morte chegou!”.

Agnaldo da Silva, outro sobrevivente, afirma que viu a polícia matar presos na entrada do presídio, nos corredores e no pátio, para onde os detentos foram levados depois da rebelião. Lá, segundo Agnaldo, os policiais matavam “só os que estavam baleados”.

“Eu não entrei nessa primeira parte, eu fiquei lá do lado de fora. Houve barulho de tiro, bastante, vários tiros”, é o que conta Alcides. Ele relata que quando entrou, “não tinha mais tiro, mas estavam lá, vários corpos no chão”.

“A situação dentro do presídio era caótica”, define o tenente. A função da sua equipe era a de “tirar os presos das celas. Tinha sangue no chão misturado com água, porque eles quebraram canos lá dentro. Tinha cinco dedos de água misturado com sangue, uma cena dantesca”, recordou. “Não tem como tanta gente assim morrer de um lado e nenhum do outro”.

Na época, o Carandiru contava com 7.257 prisioneiros, mais do que o dobro da sua capacidade. No Pavilhão 9, local do massacre, eram 2.706 pessoas detidas, seção destinada aos réus primários, aqueles detentos considerados de menor periculosidade. Para conter a rebelião, o Estado contou com cerca de 350 agentes de segurança.

Para o tenente, houve um erro de procedimento por parte da corporação. “Eu acho que não deveria ter sido a ROTA a entrar primeiro lá”, aponta. Para ele, “se tivesse sido o 3° Batalhão de Choque, por exemplo, eu acho que não haveria o número de mortes que houve”.

Ele lembra, porém, que independente da tropa, é importante destacar que os presos “não receberam ninguém com flores lá”. Os detentos foram “correndo, foram para cima, tanto que assim, quando eu entrei, tinha óleo nas escadas. Eles devem ter pegado da cozinha. A situação realmente estava feia”.

Pelas coisas que viu, ele acha justificável a morte dos presos, na medida em que os policiais poderiam ter atirado em legítima defesa.

Outro sobrevivente do Carandiru, Agnaldo da Silva, discorda. Ele afirma que ninguém no Pavilhão 9 tinha armas de fogo. Ele ataca a versão de que os presos atacaram os policiais, pois “não tinha condições, de um lado eram metralhadoras e do outro, pedaços de pau, estiletes e facas”.

Apesar de suas defesas, Alcides questiona: “111 morreram. Será que aqueles 111 foram para cima? Será que houve a necessidade de matar os 111?”.

Uma análise forense feita no local concluiu que todos os tiros partiram de armas da polícia. Há provas de que os policiais também alteraram a cena do crime. Muitos detentos foram mortos quando estavam nus, de joelhos, com as mãos para cima.

Ainda, de acordo com o documento, policiais executaram detentos que testemunharam o ocorrido, que foram feridos, ou que foram forçados a remover corpos.

‘São oito mortos’

Na época, uma reportagem da TV Globo da época apresentou a informação, concedida pelo Diretor da Casa de Detenção, de que eram 8 os mortos depois da rebelião controlada. Alcides lembra que a Secretaria de Segurança Pública não queria divulgar a informação, porque “ninguém queria dar a notícia”.

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